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“A Odisseia”: conheça os segredos do primeiro filme todo feito com câmeras IMAX

27/07/2026

Por ORLANDO BARROZO*

Lançado com grande sucesso nos cinemas brasileiros na semana passada, A Odisseia (The Odyssey), do cineasta inglês Christopher Nolan, já pode ser considerado um dos maiores acontecimentos do cinema mundial este ano. Além da história envolvente sobre Ulisses, o grande guerreiro da Grécia Antiga, o filme traz uma nova concepção visual baseada em muita tecnologia.

 

O inglês Nolan é um entusiasta das inovações tecnológicas, como já vimos nos filmes Interestelar (2014, HBO), Dunkirk (2017, Prime Video) e Tenet (2020, HBO), entre outros. E não se trata apenas de efeitos visuais. Toda a preparação de seus filmes, desde as etapas iniciais, visa explorar ao máximo as possibilidades das novas tecnologias, seja nos cenários, figurinos, captação das imagens ou no tratamento do áudio.

 

“A Odisseia” é talvez sua produção mais ambiciosa. Embora já tenha utilizado a tecnologia IMAX em filmes como Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008, HBO) e Oppenheimer (2023, Prime Video), desta vez a proposta foi muito mais audaciosa: rodar todas as sequências de A Odisseia com câmeras IMAX de 65mm, hoje o equipamento de captação mais avançado que existe.

 

IMAX é “como olhar para uma janela”

Nolan e sua equipe, incluindo o diretor de fotografia Hoyte van Hoytema, trabalharam na parte técnica do filme durante vários meses, junto com técnicos da IMAX, empresa canadense que desenvolveu o sistema de projeção patenteado em 1968 – o nome vem de Image Maximum. “Desde a primeira vez, minha ideia era criar uma espécie de realidade virtual sem os óculos”, diz o cineasta. “Com IMAX, é quase como você olhar para uma janela, e não uma tela”.

 

Em 2024, ele procurou o CEO da IMAX, Rich Gelfond, com a ideia de rodar A Odisseia somente com câmeras da empresa. Mas precisavam ser câmeras diferentes, já que as convencionais são muito grandes e pesadas (algumas chegam a mais de 200kg). Na verdade, a IMAX não produz apenas câmeras; criou uma série de especificações (de imagem e som) que se tornaram referência para toda a indústria cinematográfica.

 

O padrão IMAX só pode ser apreciado em poucas salas certificadas ao redor do mundo (no Brasil, há doze delas, sendo cinco em São Paulo). A certificação abrange desde a captação, com câmeras especiais, quanto a projeção e a exibição. Os poucos cinemas certificados IMAX possuem telas maiores (na altura e na largura) e ligeiramente curvas, para acentuar a sensação de envolvimento.

 

Câmeras IMAX registram imagens também maiores, em filmes de 65mm (nas projeções convencionais, são usadas películas de 35mm), e conseguem captar muito mais detalhes das imagens, incluindo nuances refinadas de luz e sombras (veja aqui).

 

Para dar conta de tudo isso, a IMAX também certifica os projetores usados em cada sala de cinema. Da mesma forma, o sistema de som – desenvolvido em conjunto com a DTS, da Califórnia – é cuidadosamente projetado, com alta potência e múltiplos canais posicionados de forma a permitir uma completa imersão.

 

Como são as novas câmeras IMAX

Christopher Nolan e seu diretor de fotografia durante as filmagens

“Nenhum diretor com quem já trabalhei exigiu tanto de nossas câmeras quanto Nolan”, diz Gelfond, o CEO da IMAX. Para o projeto de A Odisseia, ele determinou que sua equipe projetasse as novas câmeras dentro dos requisitos de Nolan e Hoytema:

*Câmeras mais leves e fáceis de carregar e acoplar a veículos em movimento;

*Que permitissem tomadas em close, ou seja, bem próximo aos atores;

*Operação com poucas teclas e sistemas de monitoramento a distância;

*Câmeras com baixíssimo ruído interno, para captação de diálogos íntimos.

 

Em seus filmes anteriores, Nolan e Hoytema se queixaram muito dos ruídos produzidos pelas câmeras IMAX. “Era como atuar com um liquidificador colado na sua cara”, descreveu o ator Matt Damon, astro de Interestelar. Cerca de um ano após a primeira reunião com os técnicos da IMAX, Nolan pôde iniciar as filmagens das cenas mais complexas que imaginou para A Odisseia.

 

As novas câmeras foram batizadas de Keighley, em homenagem a David Keighley, executivo da IMAX que faleceu em 2025. Embora feitas de fibra de carbono, a redução de peso (cerca de 30%) não tornou as coisas mais fáceis para a equipe de filmagem. Além disso, cada câmera tem capacidade de salvar apenas 3 minutos de filme, obrigando a uma logística insana para trocar o rolo do filme durante as cenas.

 

Outro desafio ficou para o elenco. A câmera é montada numa estrutura (rig) contendo caixa de filme, bateria, suportes e uma inovação chamada blimp. Essa foi a solução encontrada pela IMAX para reduzir o ruído do filme girando dentro da câmera, como o “liquidificador” citado por Damon.

 

Blimp é uma espécie de invólucro (imagem acima), ou casulo, que envolve a câmera inteira, deixando aparecer apenas a lente e propiciando o isolamento acústico do aparelho. Com isso, os ruídos são abafados e não captados pelos microfones, permitindo registrar com maior detalhamento a textura dos rostos dos atores, como queria Nolan.

 

Só que o blimp aumenta o tamanho do equipamento, o que exigiu outra inovação: um sistema de espelhos para os atores poderem ver os rostos um do outro. O mais incrível é que, assistindo as cenas de maior intimidade, o telespectador não irá perceber esse truque.

 

 

VEJA CENAS DAS FILMAGENS DE A ODISSEIA

Pesando cerca de 140kg, a câmera Keighley foi produzida conforme as exigências de Nolan.
Nolan e o fotógrafo Houtema dirigem Matt Damon com o complexo sistema de transporte da câmera
Detalhe do blimp, que envolve todo o corpo da câmera para abafar os ruídos do filme.
Nolan (à dir.) acompanha Houtema (com a câmera no ombro), numa sequência de ação do filme.
O diretor, que é contra o streaming, prefere que seus filmes sejam vistos no cinema
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Efeitos visuais, com objetos reais

Entre os cineastas atuais, Nolan é considerado um pioneiro das técnicas de filmagem. Influenciado por gênios como Fritz Lang e Stanley Kubrick, está sempre em busca de formas diferentes de contar histórias audiovisuais. E é isso que o atrai na tecnologia, embora confesse ser “analógico” na maneira de conceber seus roteiros, tendo se transformado num dos maiores defensores da película na comparação às mídias digitais.

 

“Filmes como os meus são feitos para serem vistos numa tela de cinema, em sala escura, com grandes projeções, e não em telas de TV ou celulares”, disse na época do lançamento de Oppenheimer. “O desafio para os cinemas é proporcionar uma experiência que seja melhor que a da sala de casa”, diz Nolan. “E IMAX é algo que pode fazer valer a pena ir ao cinema para assistir a uma história”.

 

Nolan critica muito o atual sistema de distribuição de filmes por streaming, em que o público não sabe se poderá encontrar o que deseja. “Se o filme só está disponível no streaming, existe o perigo de que a plataforma o exclua a qualquer momento. Prefiro que comprem o DVD ou Blu-ray”, acrescentou o cineasta, que também combate o uso da IA no cinema.

 

Imagens com maior profundidade e detalhamento

Mesmo o uso de efeitos especiais, no caso de Nolan, é eventual: ele sempre prefere filmar com objetos reais, ainda que isso implique em explodir um navio ou avião de verdade, como fez em Dunkirk, por exemplo. Se em seus filmes anteriores Nolan usou câmeras IMAX apenas em algumas cenas, em A Odisseia tudo foi filmado nesse formato. E todas as cenas de batalhas são reais – assista aqui ao trailer oficial.

 

Nolan diz que, graças ao IMAX, consegue preservar as características originais da película, como texturas e sutilezas da luz, mesmo em grandes projeções. Os filmes de 65mm (que são projetados em 70mm) permitem levar à tela até 40% a mais de informação por quadro, na proporção (aspect ratio) de 1.43:1, bem menos retangular que o 1.78:1 (16:9), usado na maioria das TVs.

Essa diferenciação é crucial para Nolan. Um fotograma IMAX de 65mm possui cerca de dez vezes a área de um convencional de 35mm, permitindo registrar imagens com maior profundidade.

 O sucesso de A Odisseia – tanto do ponto de vista técnico quanto de bilheteria – provavelmente irá influenciar outras produções a adotarem o novo formato IMAX. Na 3ª parte de Duna, por exemplo, que está em produção, Dennis Villeneuve está usando recursos semelhantes.

Com esse trabalho, Nolan mostrou que é possível aprimorar a captação para contar uma história audiovisual, mesmo que isso represente maior complexidade técnica.

*FONTES: IMAX, The Washington Post, Empire e ymcinema.com.

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