
Uma montanha de notícias, aparentemente não relacionadas entre si, sugere que Hollywood e as Big Techs estão em rota de colisão. Tudo indica que os próximos cinco anos irão determinar a forma como as pessoas, no mundo inteiro, gastam seu tempo livre. E quais plataformas irão dominar.
Com as empresas de tecnologia e IA penetrando com força nos setores de mídia e entretenimento, cada vez mais se discute as maneiras como elas gerenciam seus conteúdos (ou a falta deles).
Ao mesmo tempo, manobras estratégicas da Amazon, Meta e YouTube parecem pensadas para tomar conta da maior tela que as pessoas têm em casa – a TV.
Decididamente, trata-se de roubar o tempo que os consumidores hoje dedicam aos estúdios de cinema e outros produtores tradicionais de conteúdo, o que na prática significa um jogo de soma zero. E como essas empresas pensam contra-atacar? Buscando grandes acordos de cooperação, para preservar sua capacidade de competir.
Fox, Roku e as Big Techs
Esse é o contexto do negócio de US$ 22 bilhões entre a Fox e a Roku: a plataforma de streaming transforma completamente o relacionamento da Fox com outros players do ecossistema. Apesar da intensa competição de gigantes como Google, Amazon e Apple, a Roku conseguiu se consolidar como plataforma independente, criando um caminho alternativo para a TV.
Assumindo o controle da Roku, a Fox sabe que YouTube, Netflix e Amazon precisam dela como parceira, a exemplo de grupos tradicionais como Disney e o recém-criado conglomerado Warner-Paramount.
Essa foi também a premissa de David Ellison, com sua Paramount Skydance, para fechar a compra da Warner Bros. Discovery (WBD) por US$ 111 bilhões, negócio que gera uma megacompanhia de tamanho similar a Netflix ou Disney. E nenhum observador desconhece que esse acordo está sendo parcialmente financiado por Larry Ellison, pai de David, que usou suas próprias ações na Oracle para bancar o negócio.
YouTube já é a maior empresa de mídia do mundo
Neste momento, segundo levantamento Gauge, da Nielsen, o YouTube domina com larga vantagem o tempo de uso das TVs no mercado americano, com Netflix estagnada e outras empresas de streaming brigando pelo restante da audiência. O problema é que YT não para de crescer e de lançar atrativos para crescer ainda mais.
Hoje, o YouTube já é a maior empresa de mídia do mundo, com receitas superiores a US$ 60 bilhões em 2025. E, justamente esta semana, o Instagram nos informou que iniciará testes com novos formatos de vídeo, horizontais e mais longos, para disputar espaço nesse segmento.
A Meta, dona de Instagram e Facebook, diz que seu produto Reels traz mais de US$ 50 bilhões em receitas de publicidade por ano, o que é mais do que Paramount, WBD e NBCUniversal somadas – sem contar as comissões (CPM) pagas pelas emissoras de TV.
Agora, a empresa de Zuckeberg quer mudar sua estratégia, apostando que os criadores de conteúdo (inclusive muitos YouTubers) irão postar em sua plataforma buscando mais receitas. A ideia de um acordo com a Samsung para inserir o app nas TVs da marca mostra que a Meta quer mesmo estar nas maiores telas das residências.
Estúdios já perderam a guerra
dos smartphones. Agora, temem
perder a das telas de TV.
Empresas de entretenimento como Disney e Paramount sabem que já perderam a batalha pela atenção nos smartphones, ainda que estejam tentando emplacar seus vídeos verticais. Mas não podem perder também a batalha das telas grandes residenciais!
Cada minuto que alguém passa assistindo em sua TV conteúdos de criadores do YT ou do Insta, é um minuto em que não estão acessando nenhum serviço de streaming. Se essas plataformas ganharem espaço nas telas de TV, o mercado pode cair num abismo de onde não conseguirá se recuperar.
No trailer do filme O Outro Lado das Redes (The Social Reckoning), sequência de A Rede Social (The Social Network, 2010), previsto para ser lançado em outubro, o personagem de Mark Zuckerberg – interpretado por Jeremy Strong – diz: “Eu sou um absolutista da liberdade de expressão”. É um slogan comum entre as big techs, muito utilizado por Elon Musk no X e por Jeff Bezos na seção de Opinião do Washington Post: “liberdades pessoais e mercados livres”.
Big Techs decidem contra os criadores de conteúdo
E, no entanto, não se pode deixar de notar que as Big Techs, que tentam agressivamente entrar no mercado de entretenimento, já tomaram decisões preocupantes sobre conteúdo. Na semana passada, a Amazon MGM Studios de Bezos suspendeu o projeto de Artificial, filme de Luca Guadagnino sobre Sam Altman, CEO da OpenAI, já em estágio avançado de produção. Recentemente, a Amazon assinou um contrato multibilionário com a empresa de Altman.
Aliás, no mesmo dia a A24, produtora de sucessos como Guerra Civil e Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo, anunciou um acordo com o Google para desenvolver ferramentas de IA. E a Apple também abandonou o projeto de um filme do comediante Jon Stewart, devido a diferenças de opinião sobre o conteúdo.
Com gente como Bezos, Musk, Altman, Zuckerberg e outros tentando se manter próximos do governo Trump, e acordos de IA exigindo parcerias de todo tipo, parece certo que vêm aí mais conflitos entre interesses corporativos e criadores de conteúdo. Até porque, com a proliferação das IAs, muitos criadores temem que seu trabalho perca espaço para os conteúdos de baixa qualidade, ou simplesmente falsos, que tomam conta da internet.
Os próximos anos parecem prenunciar uma batalha entre Hollywood e as Big Techs, na disputa pelas telas, plataformas e a atenção das pessoas.



