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Por que o crescimento da IA pode fazer subir os preços das TVs

25/02/2026

Por ORLANDO BARROZO*

Se você achava que a IA veio apenas para melhorar o desempenho das TVs, é bom repensar seus conceitos. Em 2026, o crescimento da Inteligência Artificial começa a se transformar em ameaça para a indústria eletrônica, especialmente os fabricantes de TVs.

Fabricantes de TVs agora têm que disputar os chips com as big techs

Desde o final do ano passado vêm surgindo sinais de uma disputa, cada vez mais ferrenha, entre essas empresas e as gigantes de IA (Google, Microsoft, Meta, OpenAI). Motivo: o custo estratosférico dos chips.

A expansão das redes baseadas em IA Generativa (IAG), com uma gigantesca rede de datacenters e softwares de última geração, está forçando os fabricantes de chips a deixar em segundo plano o fornecimento para quem produz eletrônicos de consumo.

 

Preços dos chips encarecem as TVs

As TVs de alto padrão são as mais afetadas pela falta de chips

O efeito prático disso é o aumento nos preços dos chips para TVs, notebooks e smartphones. Com o mercado de IAG aquecido, as big techs têm poder de compra muito maior, e essa passou a ser a prioridade dos principais fornecedores de chips.

Segundo estudo da consultoria chinesa TrendForce, este ano os fabricantes de TVs já estão sendo afetados por essa nova dinâmica do mercado. O percentual representado pelos chips no custo de produção de uma TV irá subir de 3% para 7% (aqui, os detalhes). Samsung, LG, TCL, Hisense, Sony e demais marcas de TVs pelo mundo afora já estão revendo suas composições de custos.

Para se ter uma ideia, até 2023 o componente mais caro numa TV era o painel (LCD ou OLED). A partir daquele ano, vêm pesando muito também os custos dos chips, já que grande parte das TVs passou a incluir recursos de IA. A corrida da IAG já fez os preços internacionais dos chips subirem até 60% em alguns casos.

CEO da Samsung diz que

“nenhuma empresa está imune

aos impactos da falta de chips”

Em janeiro, o novo co-CEO da Samsung, TM Roh, admitiu que a carência de chips é uma “situação sem precedentes” e que “nenhuma empresa está imune aos seus impactos”. Falando à agência Reuters, ele lembrou que, além das TVs, há efeitos também sobre as linhas de smartphones e eletrodomésticos, admitindo que não estão descartados aumentos nos preços aos consumidor.

Curiosamente, entre os principais fabricantes a Samsung é a única que também produz chips em larga escala e, por isso, tem condições de absorver melhor a nova realidade. As demais produzem, quando muito, chips do tipo SoC (system-on-a-chip), responsáveis pelo processamento central das TVs, e mesmo assim em quantidades insuficientes.

Uma TV de alto padrão com IA, hoje, utiliza uma variedade de chips (veja o quadro), e são poucos os fornecedores de ponta. Na cadeia que atende o segmento, destacam-se marcas como Mediatek, Broadcom, Qualcomm, AMD, Texas e Samsung.

Além de um provável aumento nos preços, o que preocupa a indústria de TVs é a escassez de chips. Ao contrário da pandemia, quando houve uma ruptura na cadeia produtiva devido às paralisações nas fábricas (começando pelas chinesas), desta vez trata-se de uma nova tecnologia que chega atropelando todas as outras.

Estimativas divulgadas recentemente apontam para uma queda de até 2% na produção de TVs este ano, pela falta de memórias dos tipos NAND, DRAM e SoC, cruciais para o funcionamento das TVs atuais. Já houve uma queda em 2025, estimada em 0,8% segundo a TrendForce, devido à crise das tarifas do governo Trump.

Menos recursos pelo mesmo preço?

Uma das consequências pode ser o que em economia é chamado de shrinkflation, ou “reduflação tecnológica”. É algo como um enxugamento de recursos embarcados no aparelho para compensar o custo mais alto dos componentes. Acontece quando um produto – digamos, uma garrafa de refrigerante – traz menos conteúdo, mantendo seu preço original.

No caso de uma TV, equivaleria a reduzir algumas especificações, como memória interna, capacidade de processamento ou qualidade de som. Faz sentido nos modelos de custo mais baixo, considerando que a maioria das pessoas não utiliza todos os recursos que as TVs oferecem.

Por enquanto, o consumidor brasileiro ainda não sentiu isso nas lojas, como mostra reportagem de Daniela Braun nesta 3ª feira no jornal Valor Econômico (veja aqui). Muitos fabricantes, percebendo o perigo, se anteciparam e começaram a estocar chips do tipo DRAM DDR4, que comandam as TVs 4K. Mas há muita incerteza para o restante do ano.

Não há como prever a magnitude do impacto sobre os preços ao consumidor. Na indústria, há quem fale em 5% até 20%, o que poderia, no pior cenário, anular os ganhos com o aumento nas vendas esperado em ano de Copa do Mundo.

O que parece fora de dúvida é que esses aumentos se concentrarão nas TVs premium, que costumam utilizar chips de última geração, com várias funções comandadas por IA. A mesma IA que de um lado traz avanços pode agora se transformar em ameaça à evolução dos eletrônicos.

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