
Em 1999, esteve no Brasil o dr. Floyd Toole, uma das maiores autoridades mundiais em áudio, para participar de um dos primeiros Home Theater Workshops que organizamos em São Paulo. Toole foi pioneiro na educação dos profissionais da área, ao criar no Canadá, em 1965, o National Research Council, entidade voltada às interações entre ciência (particularmente a psicoacústica) e sistemas eletrônicos de áudio.
Entre 1991 e 2007, Toole acumulou a vice-presidência de Engenharia Acústica do Grupo Harman, em Northridge, norte de Los Angeles. Nesse período, ajudou a projetar inúmeros produtos da empresa, especialmente para a JBL, sua principal marca. Além disso, formou dezenas de profissionais, em vários países, que hoje se espalham pelas principais empresas do segmento.
Produtos lançados nas décadas de
70, 80 e 90 do século passado continuam
sendo usados no mundo inteiro
Durante nossa viagem a Los Angeles, em abril, a convite da Harman do Brasil (aqui, os detalhes), pudemos conversar com um desses profissionais: Chris Hagen, hoje responsável pelo setor de Engenharia de Áudio na JBL. Nos últimos 40 anos, Hagen esteve envolvido em inúmeras inovações no mundo do áudio, incluindo a mais importante delas, que foi a transição do analógico para o digital.

Na conversa, Hagen recordou alguns dos ensinamentos do prof. Toole, hoje aposentado aos 87 anos. “Ele defendia a importância das medições físicas para o desenvolvimento das caixas acústicas”, lembra Hagen. “Hoje, vemos que produtos lançados nas décadas de 70, 80 e 90 do século passado continuam sendo usados no mundo inteiro. Não imaginávamos isso na época, mas dr. Toole estava certo: um produto bem projetado, capaz de transmitir a exata quantidade de energia necessária a cada ambiente, continua sendo tão bom hoje quanto era quando foi fabricado”.
Nossa pergunta inicial era justamente sobre o legado de 80 anos da JBL, fundada em 1946 por James Bullough Lansing, cujas iniciais deram nome à empresa, e que em 1969 foi adquirida pela Harman. Durante nossa visita à sede da empresa em Northridge, pudemos ver de perto uma galeria com várias das caixas lançadas ao longo desses 80 anos (veja o vídeo).
“É preciso verificar o comportamento da caixa
dentro do ambiente, aproveitando as reflexões
das paredes e do teto”.
Um case clássico é o da L100 Classic, que chegou ao mercado americano em 1970 e continua sendo comercializada até hoje (veja aqui). Hagen nos falou sobre essa caixa e os motivos pelos quais ainda faz sucesso: “A L100 foi nosso primeiro projeto em que os testes não foram feitos apenas de frente (on-axis), mas também medindo a propagação lateral das frequências (off-axis). Foi uma ideia do dr. Toole que toda a comunidade de áudio elogiou.
Hoje, diz ele, todas as caixas são testadas dessa forma. “Nossos engenheiros sabem que precisam verificar o comportamento da caixa dentro do ambiente, aproveitando as reflexões das paredes e do teto. É assim que as pessoas ouvem em casa, não é ficando apenas de frente para a caixa”.

Não foi por acaso, portanto, que em 2019 a JBL decidiu reeditar esse modelo (foto), mantendo o design original, mas com componentes internos atuais. Segundo Hagen, essa versão – da qual foi feita inclusive uma L100/80, comemorativa dos 80 anos – será produzida ainda por muitos anos.
“Nosso trabalho é estar à frente do tempo.
O desafio é fazer isso sem perder de vista
a herança que recebemos”.
Outro assunto que abordamos na conversa foram as mudanças de comportamento do consumidor de áudio, que hoje às vezes abre mão da qualidade em nome da conveniência. Hagen acha que, embora as novas gerações não tenham a experiência das audições antigas, quando tudo era analógico, se forem acostumadas a ouvir som de qualidade podem aprimorar seus gostos.
“Fizemos aqui tempos atrás uma seção demo com nossa caixa Paragon (foto abaixo), que é dos anos 1950 e durante anos foi referência entre os audiófilos. Alguns jovens estranharam que faltavam graves… ora, em 1957 as gravações não continham muito grave. Hoje, uma caixa acústica não pode prescindir das baixas frequências, porque a música moderna é produzida dessa forma”.

Hagen acha que essa capacidade de adaptação aos novos hábitos dos consumidores, aliada ao legado da marca, é que permite à JBL continuar sendo referência em tantos segmentos do mercado de áudio. A empresa produz desde caixas profissionais para shows de grandes artistas a micro caixas Bluetooth que as pessoas usam em casa.

“Temos que ser criativos, e nossas equipes sabem disso”, explica ele. “Pensamos em coisas que as pessoas ainda nem imaginaram. Faz parte do nosso trabalho estar à frente do tempo. O desafio é fazer isso sem perder de vista a herança que recebemos, pois é o que as pessoas esperam da JBL. Independente do produto e da faixa de preço, temos times de desenvolvimento em várias partes do mundo, inclusive no Brasil, preocupados com a experiência do usuário. Todas as nossas caixas são projetadas e testadas pensando na qualidade da experiência”.
>> 80 anos levando música a todos os espaços <<
Tendo atravessado toda a era da transição analógico-digital, inclusive trabalhando para outras empresas (voltou para a Harman em 2014), Hagen já não se espanta mais quando lhe perguntam se o som analógico realmente era melhor. Embora seja um entusiasta do vinil e adore o ritual de ouvir os dois lados de um LP, ele argumenta que nesse tipo de discussão é bobagem ser radical.

“Acho que o digital nos dá resoluções e bit-rates com tamanha performance que nem se consegue mais perceber diferença”, diz ele. “E tem ainda o fator conveniência… aqui mesmo na Harman, quando vamos demonstrar nossas caixas para um visitante, utilizamos streaming. Fica muito mais fácil comparar sistemas sem ter que ficar trocando o disco a toda hora. Como adoro música, aprendi a arrumar espaço na minha vida para ambos, digital e analógico”.




