A importância de saber controlar os graves

Por Alex dos SantosA pergunta pode ser feita a especialistas e usuários de home theater: qual tipo de som impressiona mais durante a reprodução de um filme? Quem respondeu “os graves” acertou; afinal, cinema é espetáculo, envolvimento. Basta prestar a atenção na trilha que antecede uma cena de explosão, tiroteio, ou num ataque de dinossauro, terremoto, trovão…  São segundos de expectativa acompanhados de graves pulsantes, capazes de produzir inconscientemente uma reação de adrenalina com uma advertência de que algo muito sério (ou feio) está por vir.

Essa “mensagem oculta” pode ser ainda mais intensa se estivermos submetidos a esse tipo de campo sonoro; daí a importância não só de um bom subwoofer como também de uma configuração precisa no corte de baixas frequências das caixas. Disponível em qualquer receiver ou processador surround, o ajuste bass managementpermite enviar às caixas determinada faixa de frequência, ficando o subwoofer com a responsabilidade de complementar a faixa inferior do espectro com graves ainda mais baixos.

Mas se engana quem atribui ao subwoofer total responsabilidade pelo impacto das trilhas, pois de nada adianta ter um sub high-end se o sinal que o excita é incompatível com sua melhor faixa de atuação. Por outro lado, ao fazer o subwoofer trabalhar o tempo todo, a partir de uma frequência acima de 120Hz, e em alto volume, é provável que você ouça não graves limpos e definidos, mas muitas frequências de ressonância e reverberações por todo o ambiente. Dependendo do volume, nem é necessário dizer que terá de conter a fúria de seu vizinho nas altas horas da noite.

É o tipo de ajuste mais importante em kits do tipo in-a-box, embora quase sempre indisponível no menu, onde as configurações de corte para caixas satélites já vêm pré-fixadas de fábrica numa frequência mais alta, geralmente em torno de 200Hz. As razões são simples: suprir a deficiência dessas caixas nas baixas frequências e, claro, impressionar o consumidor no ponto de venda. Dificilmente um leigo suspeitará do desempenho triunfante de um HTB reproduzindo filmes de ação, ficção ou aventura em um espaço reservado na loja.
Essa “tática” é adotada também em show-rooms de lojas especializadas. O receiver é configurado para enviar ao subwoofer frequências a partir de 120Hz, que ficam ainda mais omnipresentes (e agressivas) com o volume do sub perto do máximo. O cliente então sente o piso e o sofá tremer e tem uma falsa impressão de qualidade.

O QUE FAZER?

As especificações técnicas das caixas podem ser o ponto de partida para definir (ou, pelo menos, entender) quais são as frequências a serem direcionadas ao subwoofer. Se a bookshelf, por exemplo, responde bem até 55Hz (+/-3dB), mantenha o controle crossover do subwoofer aberto na posição máxima; já no menu do receiver, ajuste-o para trabalhar a partir de 60Hz.

Assim, o sub cobre a faixa de graves que as caixas podem não reproduzir tão bem, evitando distorções audíveis que certamente se refletem nas médias frequências.

Mas a ficha técnica nunca deve ser encarada com rigor. É necessário conhecer o desempenho das caixas, especialmente as frontais (incluindo a central), para em seguida conferir o sub. Significa ouvir músicas – mesmo sabendo que poucos instrumentos se estendem às frequências abaixo de 40Hz –, trechos de filmes ou conteúdos de demonstração em DTS, Dolby ou THX. Esses são facilmente baixados na internet, e vêm carregados com trilhas de baixas frequências. Pelo menos, até que você se familiarize com a capacidade de graves obtida por cada caixa do conjunto, não há outra maneira de saber isso em curto prazo.

AUTOCALIBRAGEM

A calibragem automática dos receivers facilita definir o nível de saída (em dB) do subwoofer, geralmente em torno de 75dB. Embora um decibelímetro seja mais preciso, aplicativos para Android ou iOS também podem ajudar. Mas testes práticos feitos por nossa equipe revelam que nem sempre o software do receiver faz a leitura correta do sistema. Isso acontece devido à acústica problemática da sala, ao mau posicionamento das caixas ou até à qualidade do minúsculo microfone personalizado que acompanha os aparelhos.

Não são raros os depoimentos de leitores com dúvidas sobre esse assunto: “Após a calibragem automática no meu receiver, senti o som com bem menos graves, o que devo fazer?”.

Independente dos resultados obtidos com a calibragem automática, esse recurso continua sendo muito útil, sobretudo nos ajustes de nível de volume (dB) e atraso (delay) em todos os canais. Mas alguns “retoques” no corte de frequências não devem ser vistos como heresia.

Recentemente, a calibragem automática de um dos receivers avaliados manteve em 110Hz a frequência de corte de nossas bookshelf de boa sensibilidade, embora o resultado das demais configurações tenha sido perfeito. Nesse caso, como já sabíamos que a caixas respondiam bem até 50Hz, rapidamente ajustamos manualmente para esse valor de corte.

DICAS ÚTEIS

Após finalizar a calibragem automática, cheque os resultados na configuração das caixas. Verifique se o corte de frequências para todas se aproxima da resposta plana fornecida pelo fabricante, bem como a cobertura de frequências do sub para evitar buracos no som. Caso não estejam, faça manualmente.

Não há um ajuste de graves padrão para qualquer home theater. Isso varia de acordo com as caixas e o tipo de conteúdo mais reproduzido no sistema. No caso de filmes e shows, com bookshelf ou torre de menor porte, cujo disco ou streaming já traz um sinal LFE (Low Frequency Effect) dedicado, configure os graves para trabalhar abaixo de 80Hz – recomendação também da THX.

Salas de até 20m2, por exemplo, dificilmente requerem subwoofer com potência superior a 500W RMS contínuos e woofer de 10”. Modelos de 12” exigem maior distância para o ouvinte perceber com exatidão a profundidade das ondas geradas pelo drive em um gabinete de maior massa.

As ressonâncias da sala ocorrem quando o nível de baixas frequências é aumentado demasiadamente e não se consegue controlar as vibrações que atingem todo o ambiente. A solução é ter bom senso e cautela ao manipular o volume do subwoofer, que deve ser nivelado próximo das demais caixas do sistema.

O uso de dois subwoofers pode ser uma solução para reforçar os impactos e amenizar problemas com desequilíbrio acústico, como pontos nulos, em salas acima de 20m2. Mas deve ser feito com critério para evitar ondas estacionárias e graves exagerados.

MAIS GRAVES = MAIS FORÇA

A faixa de frequência captada pelo ouvindo humano é de 20Hz a 20kHz; mas é sabido que há menos sensibilidade para se detectar nuances nas frequências mais extremas, incluindo as faixas acima de 10kHz e abaixo de 500Hz. No caso dos graves, as duas primeiras oitavas – 20-40Hz e 40-80Hz – exigem por volta de 75 decibéis para que tenhamos sensação de volume similar em toda a faixa. Na primeira, é possível ouvir harmônicos gerados subitamente por instrumentos como baixo acústico, piano e órgão de tubo, além de sentir o caminhar “delicado” de um Tiranossauro Rex, a turbina de um jato ou o impacto devastador de uma explosão.

Para uma caixa convencional, incluindo torre, quanto mais baixa a frequência maior o percentual de distorção. Os graves têm de ser fortes para chamar a atenção, por isso requerem mais energia. É onde entra o papel de um subwoofer bem ajustado. Além de ser construído para lidar com sons da ordem de 40Hz, o subwoofer alivia a amplificação do receiver, para que este destine graves, médios e agudos às demais caixas, sem grandes esforços e, portanto, sem distorções audíveis.

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