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Entenda a crise da Casas Bahia e como isso afeta o mercado de eletrônicos

17/08/2026

Por Orlando Barrozo

Apesar do seu tamanho gigantesco, a Casas Bahia vem sendo há pelo menos cinco anos uma também enorme dor de cabeça para executivos da indústria eletroeletrônica. Como já vimos no passado (lembram-se? Mappin/Mesbla, Arapuã, G.Aronson, Casa Centro…), o varejo brasileiro continua sendo um campo minado, e a Bahia é apenas o caso mais recente. A rede fundada em 1952 pelo polonês Samuel Klein (1923-2014) cresceu tanto que praticamente se tornou sinônimo do varejo popular no país. Segundo a Wikipedia, chegou a ter inacreditáveis 1.078 lojas em 2023, recorde absoluto.

Não por acaso, ocupa agora o segundo lugar nessa espécie de “ranking maldito” que lista as maiores crises do setor. É superada apenas pela Americanas, com aquele rombo/fraude de 2023, estimado em R$ 41 bilhões.

Neste domingo, o Grupo Casas Bahia entrou com seu segundo pedido de recuperação judicial (RJ), citando uma dívida acumulada de R$ 17,3 bilhões. O pedido agora precisa ser aprovado pela Justiça, que nesses casos costuma dar um prazo (geralmente 60 dias) para a empresa apresentar um plano de como pretende pagar a dívida. Se é que pretende mesmo: dez entre dez fontes do mercado acham que é impagável!

O pedido anterior de RJ, no valor de R$ 4,8 bi, feito em 2024, referia-se apenas às dívidas financeiras. Com isso, a empresa conseguiu renegociar com alguns bancos e pôde continuar funcionando, com uma série de cortes de custos. Desde 2023, quando houve uma troca de comando com a entrada da Mapa Capital, gestora de recursos e participações em empresas, a Bahia fechou 355 lojas e cortou cerca de 11,6 mil postos de trabalho (mais detalhes aqui). Mesmo assim, continua sendo gigante, com 700 lojas e 20 mil funcionários (os dados estão no próprio pedido de RJ).

Pode-se encontrar diversas explicações para esse tombo, mas nenhuma irá justificar o fato concreto: permitir que uma empresa acumule dívidas desse porte é um crime. Ou deveria ser: nosso país, infelizmente, está infestado de histórias parecidas. As vítimas, além dos trabalhadores demitidos e dos credores que dificilmente receberão de volta o que seria correto, são as milhares, talvez milhões de famílias que se endividaram atraídas pela Casas Bahia. A propósito, vejam este post que publicamos em 2009.

Durante décadas, suas irritantes campanhas no rádio e na TV assediaram as classes C, D e E com a praga dos carnês. Filas de consumidores se acotovelavam em suas megalojas chamativas, nas ruas mais movimentadas das cidades, quase como fossem templos. A figura do velho Samuel (foto), imigrante fugido da Guerra que começou a vida como mascate e ergueu um império do consumo, simbolizava o paternalismo que tantos males já causou ao país. A sacada de Klein – depois intensamente copiada – foi vender mais barato que a concorrência e facilitar o pagamento, em 10, 20, 30 vezes, ganhando nos juros. Como muita gente acreditou, aquilo se transformou numa máquina de dinheiro viciando os incautos. Um modelo que, como as bets de hoje, é danoso para a sociedade – e acaba deixando muitas vítimas.

Como se não tivesse aprendido as lições dos anos 80/90, quando houve várias quebras no varejo, a indústria eletrônica embarcou nessa onda. Marcas como Sharp, Gradiente, CCE, Semp Toshiba, Philips, Panasonic e outras acabaram então apanhadas no contrapé, sem conseguir recuperar o que haviam vendido. Será que o filme irá se repetir?

 

Depois de dominar quase 70% do mercado nacional, durante o segundo governo Lula (veja aqui), a Casas Bahia – que chegou a ser comprada pelo Pão de Açúcar de Abilio Diniz, sociedade depois desfeita – mostrou acreditar que possuía “superpoderes”. Assumiu uma postura arrogante, até autoritária, segundo se dizia nos bastidores. Sentou-se em cima da liderança e não se preparou para enfrentar os novos tempos: a expansão das lojas online e a chegada de concorrentes bem mais poderosos, como Amazon e Mercado Livre.

Ainda vamos ouvir falar muito sobre os efeitos dessa catástrofe!




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